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Como eu deixo o outro cuidador cuidar?

  • Foto do escritor: Cams
    Cams
  • 12 de jul.
  • 2 min de leitura

 

            Ainda aqui falando sobre o período do pós nascimento, porque a gente enquanto está nele sobrevive, não tem tempo de racionalizar muita coisa, ou se quer tem alguma parte do cérebro disponível para isso. A privação de sono me deixou maluca, a ponto de vez ou outra esquecer que tinha inclusive colocado a criança de volta ao berço após o mamá da madrugada, consegue imaginar o desespero?

            Sabe quando eu disse lá atrás, sobre instinto, natureza e afins? Eu fui entender que o corpo da mulher que gestou e pariu entra em um estado de alerta profundo e é inevitável que a gente faça coisas esquisitas, sendo o animal que somos. Sim, é importante lembrar sempre que apesar de sermos totalmente capazes de falar, pensar, existir conscientemente, ainda assim fazemos parte da natureza. E por que eu tô falando disso?

            Toda madrugada, quando minha bebê chorava e eu já estava exausta de acalentá-la, meu companheiro, o pai dela, me dizia “vai dormir, eu cuido dela, fica tranquila”. Palavras maravilhosas para se dizer para uma mãe de sei lá, uma criança de um ano ou dois, mas para mim que tinha acabado de parir, parecia algo estranho, ainda não sei explicar a sensação direito. Posso tentar?

            Achava que como eu tinha a feito, carregado, nutrido e parido, a obrigação do cuidado era minha, sentida que estava incomodando, pasmem, o pai da criança quando ele oferecia o cuidado, que é obrigação dele e eu defendo isso, com unhas e dentes. Parecia pedir muito descansar. O choro dela sentido doía a alma, dava agonia e me fazia tremer o corpo inteirinho. Que sensação é essa, meu deus? Alguém por favor, me devolve minha filha? Me entrega ela, eu sei por que ela chora, eu acho. Eu sei como trocar a fraldinha, como ela gosta da roupinha dela ou como é que ela gosta de ser ninada para dormir.

            Mas espera. O pai dela também sabe. E se não sabe, precisa de espaço para descobrir. Afinal, a escolha de tê-la foi conjunta e não fiz sozinha, apesar de parecer que todo o trampo foi meu, parece né? O que são 5 min comparado com 10 meses? Brincadeira.

            Eu não entendia, mas para além de deixar o pai ser pai, eu poderia abrir também o leque e deixar a tia ser tia, os avós serem avós e assim sucessivamente. Confesso que demorei um pouquinho para entender isso e realmente fiquei mesmo esquisita, mas não era nada de uma maluquice mirabolante, era a vida acontecendo, o instinto de proteção, eu aprendendo a cortar o cordão e tudo embolado com hormônios em montanha russa.

            E sabe o que mais me recordo desses momentos de “insanidade” sã da minha nova natureza e título? Lembrar que meu companheiro, apesar de não entender absolutamente nadinha do que estava acontecendo comigo, segurou minha mão e disse “tudo bem, deixa eu te ajudar a descobrir como é que a gente faz com tudo isso que você sente. Você não vai passar por isso sozinha. Eu não vou deixar.”

            Eu sinceramente não sei se há prova de amor maior, do que deixar quem se ama ser quem é, ou ao menos descobrir quem quer ser, quando a fragilidade desmonta a própria alma.


 
 
 

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