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O pai que eu vi nascer

Foto do escritor: Cams
Cams
12 de jul.
2 min de leitura

É engraçado como bebês costumam nascer em manhãs de domingo, fato que fez algumas pessoas começarem a usar como legenda aquela música do Alceu Valença “tu vens, tu vens, que eu já escuto os teu sinais... que tu virias numa manhã de domingo...”. Confesso que queria ter usado essa belezura de verso, mas não foi possível.

            No sábado, com 40 semanas de gestação, eu e meu marido passamos o dia mais tranquilo de todos. Acordamos, tomamos café na padaria, caminhamos um pouco, depois almoçamos e dormimos atarde inteirinha. A espera já estava tão comum que a gente começou a viver a vida como se fosse o último dia. Desistimos de ficar em casa e cada um foi para um evento diferente, eu saí com minha irmã, pai e cunhado e ele com os nossos amigos de infância, sim nós temos os mesmos amigos, é engraçado né?

            Minha bolsa rompeu no fim da noite, na madrugada de domingo. Quando minha família ligou para ele avisando, mozi simplesmente saiu à francesa e foi me encontrar. Não fez nenhum alarde, só saiu e foi. Com a calma que sempre teve e que combinamos permanecer tendo. O combinado para o parto era “ninguém precisa saber”, mas como ambos estávamos fora de casa, foi inevitável não ter alguma testemunha.

            Nossa filha nasceu no meio da tarde de segunda feira. Aqui, você consegue imaginar por quanto tempo fiquei em trabalho de parto? Sentindo contrações cada vez mais próximas, intermitentes, sem comer, sem dormir, tremendo e com medo. E meu marido estava ali, do meu lado, quase sentindo exatamente tudo o que eu estava sentindo. Como um espírito amigo que observa, espera, auxilia e envia amor, lá estava ele, do meu lado, sem dizer uma única palavra, só me dando o apoio que eu precisava no momento mais avassalador da minha vida.

            Mas essa não era a primeira vez que ele cuidava de mim assim. Eu já sabia o que esperar dele, na fragilidade extrema, eu sabia que podia estar despida, e eu estava mesmo literalmente, e ele cuidaria de mim com todo o amor que eu precisava.

            Assim que minha filha saiu da barriga, eu vi o alívio que ele sentiu. Não só por todo o “sofrimento” ter acabado, mas por ter finalmente conhecido a pessoa que esperamos meses e meses para conhecer. Os olhos dele brilhavam de um jeito tão bonito. Nunca tinha visto isso antes.

            A imagem dele a segurando no colo pela primeira vez, admirando sozinho, depois de me acompanhar gestar, nutrir e parir vai ficar marcada para sempre na minha memória. Ali ele também nasceu pai. Fez sua travessia longa, para chegar aonde estava, naquele momento. Acho que nem mesmo quando cortou o cordão umbilical se conectou tanto com a paternidade, como quando a segurou e olhou nos olhos pela primeira vez.

            Eu vi Vitor sair para entrar papai.

 
 
 

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