O puerpério
- Cams

- 12 de jul.
- 2 min de leitura

Não há uma alma no mundo que vai dizer o quanto o pós-parto é uma coisa extremamente triste, embora o nascimento seja a coisa mais feliz que eu já vivenciei na vida. Olha, eu já conquistei muitas coisas legais sendo uma pessoa com deficiência, com duas graduações no bolso, viagens, amigos incríveis e muitas outras coisinhas. Ver minha filha nascer foi a mais impactante que eu vivi, além de agora poder ver ela crescer e se desenvolver, ser gentil e graciosa nesse mundo maluco.
Nada me preparou para a solidão que senti, dia após dia, depois do nosso nascimento. Você deve pensar, talvez ela esteja deprimida, o que é muito comum nessa fase da vida, com os hormônios a todo vapor, oscilando, subindo, descendo, desaparecendo, regressando, sangue, lágrimas, alegrias e pouco sono. Inclusive, até chegaram mesmo a me mandar para terapia, mas isso foi mais egoísmo alheio do que propriamente preocupação com a minha saúde mental. Ficou confuso, né?
Explico. Apesar de todo mundo estar disposto a conhecer a mini pessoa que chegou para as famílias, ninguém ali, além de mim tinha parido um bebê e uma placenta, dado adeus à uma barriga que cresceu e cresceu por meses ou até mesmo estava com as mamas transbordando leite. Não havia uma bendita alma sentindo o vazio do corpo, a dúvida ou a incerteza do dia seguinte. Apesar de o pai estar sempre ao meu lado, vivendo cada segundo da vida da nossa criança comigo, só eu estava vivendo o que chamam de puerpério.
Nem mesmo ele sentia o instinto apavorante de o corpo se estremecer inteiro, a vontade de atacar alguém e pegar de volta o bebê que chora descontroladamente, porque está aprendendo a existir fora da barriga e longe de mim. “A vida é assim mesmo, você deve estar um pouco maluca”.
Maluca, meus amores, eu sempre fui. Eu estava mãe. Eu sou mãe.
As literaturas tentam explicar o baby blues, a depressão pós-parto e inclusive, muita gente usa desse sofrimento para seguir desacreditando as mães, causando culpa e desobedecendo as leis da natureza que dizem claramente que um filhote deve e precisa estar juntinho da sua mãe. O vínculo já está estabelecido, a segurança já existe, nós sabemos quem somos e não conhecemos os outros. Sim, eu não conhecia as outras pessoas à partir do olhar de mãe. Tinha dúvidas, receios, medo.
E mesmo arisca, os que me amavam estava ali. Me permitindo ser a mãe que lambe seu filho te em paz e cuidaram de todo o resto. Passei o puerpério sem grandes estresses, digo sem grandes estresses porque é inevitável não passar por nenhum. Driblar gente sem noção é impossível. Mas eu consegui estabelecer uma aldeia que apesar de raramente entender o que estava acontecendo comigo, não me impediram de viver o que eu precisava viver para ser a mãe que sou aqui e agora.
Hoje, minha filha desbrava o mundo, muitas vezes sem mim. Porque eu entendi lá atrás que a gente precisava desfazer pouco a pouco aquele cordão que nos uniu por meses e cada uma viver a própria vidinha, feliz e plena.



header.all-comments