Por que estou sentindo culpa, afinal, estou sonhando?


Assim que coloquei na imaginação, a ideia da minha filha frequentar a escola, em período integral, o coração acelerou, apertou e começou a oscilar do absoluto nada. Não entendi, de primeira, o sentimento. É uma coisa engraçada falar de sentimentos na vida adulta, quando a gente nunca conseguiu nomear o que sente e foi claramente silenciado e reduzido a sentir apenas gratidão, calma e quietude.
O que eu sentia fez-me suar, tremer e me sentir um pouco irritada. Não era uma decisão pronta, pelo amor de Deus. Era só uma ideia. Afinal, comecei a entender que a escola é, atualmente, o lugar mais seguro em que ela pode estar, para que eu também possa seguir segura, caminhando para sonhar, estudar e ser independente. Eu duvido muito que tais oscilações e essa sensação duvidosa de emoções sequer adentrem o corpo do pai dela, ou de qualquer pai neste universo! Pois, ao pai, é permitido viver a vida de desbravar o mundo sem peso nenhum.
Você deve estar se perguntando: mas essa garota não desejou a criança além da conta? Não planejou, estudou, latiu, fez um milhão de loucuras? Sim, eu fiz, porque eu quis. E estou aqui a sonhar, escrever, estudar e pesquisar porque quero. Minha criança não me impede de ser várias outras coisas na vida. Bem, ao menos eu acho que não deveria, né?
E aqui estou eu tentando explicar para você e para mim mesma algo que, novamente, o pai jamais estaria vivendo em tamanho dilema: por que estou sentindo culpa em sonhar?
Não estou depositando minha filha em uma geladeira, onde ela vai ficar quietinha, sem interagir com a vida, para que eu possa viver a minha e depois voltar para buscá-la. O plano é totalmente o oposto disso. Estou pensando primeiro nela, no conforto dela, antes mesmo de ter certeza de onde eu vou.
Mãe é uma coisa muito interessante. Olha para mim: estou aqui lapidando um sonho antigo, mas, antes disso, garantindo que minha filha esteja plenamente assistida antes que eu avance. Porque meu coração só fica em paz se ela estiver bem. E eu só posso sonhar tranquila se posso olhar para o lado e vê-la.
Estou, então, sentindo alívio. Posso nomear assim. Claramente não estou em paz. Queria estar a todo tempo com ela. Poder assistir a cada pequena conquista, mas eu também preciso viver a minha vida e que ela veja algumas das minhas pequenas conquistas, também.
Que ela diga, com orgulho: "Ah, tudo bem, minha mãe avisou que não podia vir. Está vivendo o sonho, mas prometeu que vinha da próxima vez. E veio."
Sei que provavelmente irei me ausentar de alguns momentos da vida dela, como, eventualmente, o pai irá, quando precisar aparecer em reuniões importantes e eu fizer questão de substituí-lo. Que ela entenda que nós fazemos as coisas por ela e por nós mesmos, e que o trabalho não é inimigo da família, do amor ou da presença física. Tudo hei de encontrar equilíbrio. Paciência.

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