top of page

Solidão da surdez

  • Foto do escritor: Cams
    Cams
  • 14 de jul.
  • 2 min de leitura

Atualizado: 15 de jul.

imagem gerada por IA, baseada em uma foto minha.
imagem gerada por IA, baseada em uma foto minha.

Passar uma vida inteira avisando sobre uma deficiência invisível é extremamente cansativo. Não sei se você consegue mensurar o tamanho desse cansaço. Pensa na frequência com que preciso repetir, até para amigos de longa data, que não recebo áudios nem ligações porque não escuto.

            Mesmo com a função de transcrição, muita coisa se perde. Às vezes, o objetivo da conversa desaparece; outras, o áudio foi encaminhado de forma tão ruim que nem a inteligência artificial consegue identificar o que foi dito. Imagina eu, que "male male" escuto do ouvido esquerdo.

            Ser surda nunca foi um grande problema para mim, ao menos enquanto eu crescia. Até os meus 21 anos, vivi aos trancos e barrancos sem aparelhos auditivos. Concluí o ensino médio com muito sufoco. Eu conseguia acompanhar as aulas com dificuldade e acabava mergulhando intensamente nas leituras, sendo basicamente autodidata e era muito, muito ruim em matemática.

E mesmo assim, chagamos ao saldo, mesmo ouvindo pouco, tendo uma educação básica questionável e pouco acesso à cultura, ainda assim, hoje tenho duas graduações e uma infinitude de cursos de aperfeiçoamento de pós graduação.

            Aos 24 anos, descobri que era possível usar aparelhos auditivos pelo SUS. Um professor de inglês me indicou o serviço. Naquela época, eu tentava concluir minha primeira graduação, em língua estrangeira, enquanto minha audição piorava de um jeito estranho, depois de uma otite, que fez meu diagnóstico mudar de surdez bilateral parcial moderada para parcial severa. Chique, né?

            Naquele tempo, eu acreditava que os aparelhos auditivos salvariam toda a minha existência. Depois de tantos anos convivendo com um diagnóstico equivocado, (consequência das limitações do conhecimento da própria otorrinolaringologia da época) jurei que minha vida seria outra. Tinha certeza de que me tornaria a pessoa mais comunicativa do universo. Que finalmente conseguiria participar das conversas, dos debates, das palestras. Que deixaria de repetir o que as pessoas tinham acabado de dizer, achando que havia inventado uma grande ideia (quando, na verdade, meu cérebro só confundia o que tinha ouvido com um pensamento próprio).


Mas isso não aconteceu.


Porque ouvir e escutar são coisas diferentes.

 

E eu nunca realmente ouvi, né?

           

Vou te contar uma coisinha: é doloroso estar extremamente empolgada em algum lugar, A-M-A-R um assunto e, no meio do caminho, se perder porque alguém interrompeu a conversa e, quando você percebe, o tema já passou por mais três assuntos diferentes. E você perdeu a chance de dar aquela opinião babadeira.


Eu fui parando de sentir vontade de participar das coisas.


Comecei a ter medo de interromper as conversas.


Comecei a falar menos.


E as pessoas continuam me perguntando:


— Como assim você não está ouvindo? Seu aparelho não está ligado?


— Está. Mas e daí? O que eu faço com o barulho?


Muitas pessoas surdas vivem na pele o famoso "estar sozinho no meio da multidão". Os ruídos existem. As risadas aparecem. Às vezes, a gente até entende um pedacinho do que está acontecendo. Mas não está lá de verdade.


Talvez seja isso o que eu sinto sobre a minha vida, sigo ocupando um lugar onde a conversa acontece, sem nunca conseguir habitar nela.


 

 
 
 
bottom of page